quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Pretérito imperfeito - Bruno Lima

Cidade


Volto saudoso a olhar a cidade

que passa como uma sequência

de quadros cheios de pura arte.

Percebo a metamorfose de meu

cérebro, e minha alma

se angustia com a causa hipotética

de tal abominação.

Tenho que usufruir mais os prazeres

da vida não tendo medo de morder

a maçã vermelha como o sangue

que jorra debilmente alegrando o

chão calçado.
 

                                   16/11/1992
 
 
 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Noiva - Renato Rezende

[CHAMAS]

 

                        Por que você não começa com elefantes? Adoro elefantes.

 

Vi certa vez um documentário sobre um lugarejo da Índia no qual eles

 têm rolos de pergaminhos com a história de todo mundo que já viveu

 e que viverá na terra. Foi um sábio que escreveu há não sei quantos

 anos. O cara do documentário foi lá só para checar, todo cético, é claro.

Então entrou num lugar que parecia uma lojinha do fim do mundo. O

 sujeito perguntou o nome dele e disse: Espere um momento. Depois

voltou com um rolo... que tinha o nome dele e a história de sua vida até

a morte!

 

será que existe?

 

[será que existimos?]

 

será que esse lugar existe mesmo?

 

Sabia que se come mais açúcar no dia de Diwali na Índia do que no

 resto do mundo o ano todo? E aqueles enormes brigadeirões que eles

enfiam nas bocas dos elefantes?

 

Ladhus.

 

Pura doçura.

 

Amor em toneladas!

 

Tudo o que se passa e sempre passou pelos meus olhos foram imagens de festa.

 

Tudo o que se passa e sempre passou pelos ouvidos foram sons de festa.

 

(De paz?)

 

E de dor, de melancolia, de horror, de desespero,

especialmente de desespero?

 

Dance com a dor

 

Um tango, uma valsa

 

Gire

Tudo pelos meus olhos, festa.

Tudo pelos meus ouvidos, festa.

Festa, frenesi, júbilo, dança de dervixes.

 

VIDA

 

Fogo riscado na escuridão.

Elefantes em chamas.

O castelo em chamas.

Bibliotecas em chamas.

Todos os peixes. O oceano em chamas

 

O fogo do Amor:

O que não é Amor é contra o amor.
 
 
(do livro "Noiva", Azougue Editorial)
 
 
 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

VIII - Jacques Roubaud

Mundo ingênuo


Mundo ingênuo, montanhas de ouro, cavalos alados.

Pulsação do sentido à verdade.

Suspensão da recusa incrédula,

Voluntária,

Que estejas aqui, que sejas isto!

Não posso falar de nada,

Sem que esse nada,

Tenha efeito de um retorno,

E cesse de só comigo me ocupar.


(do livro "Algo: preto", Editora Perspectiva)


domingo, 4 de agosto de 2013

Ismália - Alphonsus de Guimaraens

Ismália


Quando Ismália enlouqueceu,

Pôs-se na torre a sonhar...

Viu uma lua no céu,

Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,

Banhou-se toda em luar...

Queria subir ao céu,

Queria descer ao mar...

Estava perto do céu,

Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu

As asas para voar...

Queria a lua do céu,

Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu

Ruflaram de par em par...

Sua alma subiu ao céu,

Seu corpo desceu ao mar...

 
FIM

 
(do livro “Ismália”, Cosac & Naify)


sábado, 3 de agosto de 2013

meudeuscomoeutoputo & as bandeiras esperam - Clara de Góes

revolução


Pipa avoada

linha solta

papel de seda

na tarde azul


Foi tudo adiado, não se preocupe

que as bandeiras esperam

pai, no ponto marcado

na hora vermelha

a vida se atrasou.
 
 
(da revista "Estrelas vagabundas #3", outubro de 2011)
 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O amor - Diana de Hollanda

na tua língua passarei dez noites
estendida, espalhando ácidos cítricos
dentre dez devoções dissimuladas.

ao tambor renderei meu ventre pérfido
e dançarei a nua crua anis.
corrompido o teu corpo, seco o resto.

na tua alma, por fim, derramarei
os venenos agudos da paixão
enquanto gozo do prazer infindo.



(do livro “dois que não é amor”, 7Letras)



quinta-feira, 1 de agosto de 2013

À deriva - Omar Salomão

Grilhões e serpentinas



Esperanças à toa se partem

            chaves perdidas, sem serem usadas

Vultos passam, quem deixa as marcas?

 
Estendo a mão para me agarrar em algo

Cartas e búzios indicam o caminho

Salto no abismo,

Uma corda ao pé

Outra ao pescoço

 
Em queda

Desato os nós dos dedos

E com um passar de mão

As paredes desabam

Uma a uma

 
E vou-me ao fundo

E vou-me ao longe

E vou-me além


(do livro "À deriva", Dantes)