terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Letícia Brito



Se...


se você aponta: é culpabilização,
se você reclama: é vitimização, 
se você protesta: é vandalismo, 
se você pensa: é sofismo, 
se você não se manifesta: é alienação,
se você existe: é existencialismo, 
se você questiona: é anarquismo, 
se você vende: é capitalismo, 
se você paga: é consumismo 
mas se você rotula todas as ações anteriores

aí é hipocrisia mesmo...


Letícia Brito é educadora, produtora cultural e poeta. Idealizadora e produtora de um dos eventos do Romã com Travesseiro, o Pizzarau, evento mensal na pizzaria La Carmelita, na Lapa (www.facebook.com/pizzarau). É também produtora executiva do slam de poesia que acontece toda primeira terça feira do mês no Rio de Janeiro, o sarau Tagarela (www.facebook.com/sarautagarela). Mantém uma página no face e um blog com seus poemas (www.facebook.com/livrodalele) (http://livrodalele.blogspot.com.br/).



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A maldição de Sarnath - H. P. Lovecraft



Nathicana


Foi no pálido jardim de Zais;
Os nevoentos jardins de Zais
Onde enflora o argênteo nephalot
Que flagrante à meia-noite anuncia.
Ali dormem cristalinos lagos
E regatos que escorrem silêncios
Doces riachos da grutas de Kathos
Do crepúsculo, o berço sereno.
E cruzando por lagos, regatos,
Ficam pontes de puro alabastro,
Brancas pontes gentis cinzeladas
Com figuras de fadas e duendes.
Brilham ali sóis estranhos, planetas
E estranha é a crescente Banapis
Que se põe nas colinas relvosas
Onde adensa, na tarde, o crepúsculo.
Ali baixam os vapores do Yabon;
Alvos, lassos vapores do Yabon;
Foi ali, na voragem das névoas
Que avistei a divinal Nathicana;
De grinalda, virginal Nathicana;
Negras mechas, esguia Nathicana;
Olhos negros, gentil Nathicana;
Lados rubros, querida Nathicana;
Voz argêntea da doce Nathicana;
Vestes alvas da amada Nathicana.
E minha amada ficou para sempre,
Desde o tempo em que tempo não havia
Desde o tempo em que estrelas não havia
E que nada existia salvo o Yabon.
E vivemos em paz pelos tempos,
Inocentes crianças de Zais,
Percorrendo caminhos e arcadas
Coroadas com a alva nephalot.
Quanta vez ao crepúsculo vogamos
Sobre pastos, colinas floridas
Alvejadas pela humilde astalthon;
A humilde e graciosa astalthon,
E sonhamos em um mundo de sonhos
Belos sonhos, mais belos que o Éden;
Sonhos puros, mais reais do que a razão!
E por eras sonhamos, nos amamos,
Até a horrenda estação de Dzannin;
Remaldita estação de Dzannin;
Onde rubros eram os sóis, os planetas,
Rubra ardia a crescente Banapis,
Rubros vinham os vapores do Yabon.
Encarnavam-se as flores, os regatos
Sob as pontes, os lagos serenos,
E até mesmo o suave alabastro
Refletia escarlates sinistros
Tal que as fadas e duendes espalhados
Espreitavam encarnados das sombras.
Vermelhou-se-me agora a visão.
E pela densa cortina espreitando
Louco vi a etérea Nathicana;
A inocente, sempre alva Nathicana
Adorada, intocada Nathicana.
Mas cumuladas vertigens de insânia
Enevoaram-me a difícil visão;
A maldita, avermelhante, visão
Refazendo o mundo em meu ver;
Novo mundo escarlate e sombrio,
Um horrendo estupor, o viver.
Mergulhado no estupor do viver
Vejo claros fantasmas da beleza
Poucos, falsos fantasmas da beleza
Mascarando as maldades de Dzannin
Eu os vejo com infinita saudade,
Tal e qual minha amada os vê:
Mas seu Mal brilha em seus olhos turvos;
Seu pungente, impiedoso Mal
Mal maior que o de Thaphron ou Latgoz
Mais cruel pôs que oculto no belo.
E somente no sono da meia-noite
Vejo a dama perdida, Nathicana,
Vejo-a pálida, pura Nathicana,
Desfazendo-se ao olhar sonhador.
E incansável procuro por ela;
E procuro entre goles de Plathotis
Fermentado no vinho de Astarte
Engrossados por lágrimas incessantes.
Eu anseio pelos jardins de Zais;
Jardins belos, perdidos, de Zais
Onde o alvo nephalot floresce.
Da meia-noite o arauto fragrante.
O fatal sorvo final vou urdindo;
Sorvo tal que deleite os demônios;
Sorvo tal que a vermelhidão encerre;
O horrível estupor que é o viver.
Muito em breve, se a mistura for certa
Vermelhão e insânia se irão,
E apodrecerão no negror verminoso
Vis cadeias que me escravizavam.
E os jardins de Zais novamente
Serão alvos em minha magoada visão
E ali, entre os vapores do Yabon
Estará a divinal Nathicana;
Restaurada a imortal Nathicana,
Outra igual, entre os vivos, não há.


(do livro "A maldição de Sarnath", Editora Illuminuras)



domingo, 2 de fevereiro de 2014

Retrato do artista quando coisa - Manoel de Barros



Retrato do artista quando coisa


Não ser é outro ser.
Fernando Pessoa

1

Retrato do artista quando coisa: borboletas
Já trocam as árvores por mim.
Insetos me desempenham.
Já posso amar as moscas como a mim mesmo.
Os silêncios me praticam.
De tarde um dom de latas velhas se atraca
em meu olho
Mas eu tenho predomínio por lírios.
Plantas desejam a minha boca para crescer
por de cima.
Sou livre para o desfrute das aves.
Dou meiguice aos urubus.
Sapos desejam ser-me.
Quero cristianizar as águas
Já enxergo o cheiro do sol.


(do livro “Manoel de Barros – Poesia Completa”, Editora Leya)



sábado, 1 de fevereiro de 2014

Duda Machado



Morto-vivo


Há na expressão morto-vivo
uma certa maleabilidade
a desdobrar-se até o predomínio
exíguo de um termo sobre o outro,
ou uma distância qualquer entre
eles, a partir de sua ligação.

Dá para imaginar também,
leitor, esta expressão no centro
de uma página; avulsa sobre
o branco. E, de dentro para
fora da página, alguém
a percorrer aquela distância
qualquer. Ou mesmo muitos.
Aí seria preciso páginas
e mais páginas. Ou livros
e mais livros.


(do livro “Antologia comentada da poesia brasileira do século 21”, organização: Manuel da Costa Pinto, Publifolha)