sábado, 5 de abril de 2014

Waldecy Pereira



Flanárias


Consumindo a enorme cidade
Percorrendo avenidas
Ruas, becos e ladeiras.
Sons, imagens e cheiros
Música alta, funk.
Buzina de van, Madureira, Vaz Lobo
Metrô de Vicente de Carvalho tem vaga.
Mulheres de microssaia
Discutem capítulo de novela
Virando prum lado, virando pro outro,
nas mãos Guaravita com biscoito.
Tudo vendo, vendo tudo, sendo visto.
No ar, helicópteros
Programa patrulha da Cidade
Natura e Avon.
Picolé da Boneca, melhor não há
É o carro da pamonha
passando em sua rua.
Ruas com vestígios de passado


(do livro “Flupp Pensa – Poesias”, Editora Aeroplano)



sexta-feira, 4 de abril de 2014

Lacan por câmeras cinematográficas - Fernando Andrade



Anjos de Wim Wenders


Ah! Este riso seu
Suprindo o vão da porta
Que eu deixei entreaberta
Para olhar tua nudez

Quando os ponteiros
Do relógio deram 12 horas
Pedi aos anjos de Wim Wenders
Que você continuasse
Nua ao sair do banheiro.


(do livro "Lacan por câmeras cinematográficas, Átame)



quinta-feira, 3 de abril de 2014

Reunidos I - Ana Tereza Salek

réquiem


Já gozei nessa vida
Da fortuna de um homem
Bom e justo.

Já tive mais namoradas do que amores frívolos.
Já fiz um filho,
Plantei feijão
E os livros que não escrevi
Tem menos sonetos do que amores mortos.

Pousei tantos ramos
Sobre o corpo de Esmeralda
Li e reli os versos que escrevi para Esmeralda
(Antes de atear o fogo que lambeu o ondear dos cabelos dela)

Já sonhei trêmulo ao pé da lareira
Apertando meus joelhos no peito
Com medo do inferno, com medo
De ir pro céu.

Hoje eu não tenho mais medo
De ter medo de temer a morte

Que a morte
É um rinoceronte filhote
Cujo fígado é composto
Pelos átomos de flores antigas.

Hoje eu sou filho, avô, namorado e Rei

E sei que as pedras preciosas,
Esmeralda,
Duram mais
Do que o meu nome, ali, olha
Cavado no ferro da lápide.


(do livro "Dezembro", Editora Circuito)



quarta-feira, 2 de abril de 2014

cabeça, tronco e versos - Victor Colonna



Em atraso


O tempo se divide rapidamente:
O futuro me passa para trás
E só resta o passado pela frente.
A vida exige minha presença
E eu respondo:
Ausente!


(do livro "cabeça, tronco e versos", Editora da Palavra)



terça-feira, 1 de abril de 2014

Lívia de Souza Vidal


Comprimido

COMprimido
pequena cápsula levada ao orifício bucal na busca de extinguir
o que não se poderia deter
VIDA respira, aspira, inspira e vai saindo sem que ninguém possa reter
REprimir o ato
SUprimir a memória
Oprimir o autor
E IMprimir nos lábios o que as palavras são poucas para dizer
DEprimir paralisa a energia
EXprimir rebobina, reelabora, releva, REimprime a vida que já não se pode conter!


Obstinada eclodi em 82, obra do Pintor VIDAL e da Solidária LEILA.
A Educação me Inspira. Negra sigo guiada pelo desafio, utopia, desconstrução e transformação.
A beleza da arte me orienta!