quarta-feira, 5 de novembro de 2014

play - Gabriel Resende Santos



soneteiro


era teu lápis esfregando as trevas
quem gentil flertava as almas penadas:
na boca explosivos ácidos ervas,
no papel gasto esgoto das vanguardas.

acompanhado em noites inspiradas
eras todo me passa logo a cerva,
mas após censuras das namoradas
fez-se mesurada a recente leva.

pois mesmo que a liberdade lhe mostre
o atalho (usurpar a rima tirana)
e ajude a queda trágica do trema

ainda não te desvias do mote:
sem ter sorte com rebuscadas damas
és verso discreto como nas camas.


(do livro “Elevador”, Editora Patuá)



terça-feira, 4 de novembro de 2014

Alan Salgueiro



Pra que eu escrevesse novamente sobre ela (entre covas e abóboras)


Entre Halloween e Finados
você reapareceu pra me dar susto
usando alguns dos seus subterfúgios
com aquele discurso definido

Tua prosa que era verídica
foi se arrastando cadavérica
cada velha lembrança
veio à tona em meio à autópsia

A minha dor que era um defunto
saltou tão reticente do decúbito
quanto você surgiu feito um fantasma
tão pasma, pálida e vestindo branco

Clamando por perdão e me assombrando
logo quando minha febre ia cedendo
você despertou do sono profundo
do túmulo saiu alguns segundos
voltou pra confundir o meu futuro
Fatídico Outubro pra Novembro

E beijou-me gélida
como a menina ruiva da novela
entre covas e abóboras
enquanto eu ouvia ópera
pra que eu escrevesse
novamente sobre ela

Em vez de tinta
eu derramei cera
Usei a vela
junto com a caneta
e enterrei de vez o algo mais
então sacramentei um outro fim
desejei que você fosse feliz
torci pra que você dormisse em paz


Alan Salgueiro é poeta, carioca das Laranjeiras, criado na Rocinha e morador de Nova Iguaçu. Alia à poesia, elementos do teatro e da música, tudo feito com mais intuição do que técnica. Gosta de palco, de público, de performatizar a expressão. É integrante do Coletivo Pó de Poesia, de Belford Roxo e idealizador do Projeto Rascunhos de Revolução.






segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Novos poemas I - Rainer Maria Rilke



O poeta


Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: da boca o que faço agora?
Que faço do dia, da noite?

Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora.
 

Der Dichter


Du entfernst dich von mir, du Stunde,
Wunden schlägt mir dein Flügelschlag.
Allein: was soll ich mit meinem Munde?
mit meiner Nacht? mit meinem Tag?

Ich habe keine Geliebte, kein Haus,
keine Stelle, auf der ich lebe,
Alle Dinge, an die ich mich gebe,
werden reich und geben mich aus.


(do livro “Coisas e anjos de Rilke”, traduções: Augusto de Campos, Editora Perspectiva)



domingo, 2 de novembro de 2014

Tarde - Olavo Bilac



Ciclo


Manhã. Sangue em delírio, verde gomo,
Promessa ardente, berço e liminar:
A árvore pulsa, no primeiro assomo
Da vida, inchando a seiva ao sol... Sonhar!

Dia. A flor, – o noivado e o beijo, como
Em perfumes um tálamo e um altar:
A árvore abre-se em riso, espera o pomo,
E canta à voz dos pássaros... Amar!

Tarde. Messe e esplendor, glória e tributo;
A árvore maternal levanta o fruto,
A hóstia da ideia em perfeição... Pensar!

Noite. Oh! saudade!... a dolorosa rama
Da árvore aflita pelo chão derrama
As folhas, como lágrimas... Lembrar!


(do livro "Poesias", Editora Itatiaia Limitada)



sábado, 1 de novembro de 2014

Vanessa Lusitano



Estrelas


Que beleza distante,
De simplicidade constante
Em um céu vibrante,
De azul extravagante

Beleza comum,
Quando se olha para o firmamento.

Beleza incomum,
Quando se olha para o agrupamento.


(do livro “Rio inVersos”, organizador: Delmo Fonseca, Confraria de Autores)