segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Álvaro de Campos



Ode marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho pró lado da barra, olho pró Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh’alma está com o que vejo menos.
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.

Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
É — sinto-o em mim como o meu sangue —
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui…

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.





domingo, 9 de novembro de 2014

50 poemas escolhidos pelo autor - Antonio Carlos Secchin



A Fernando Pessoa


Se é corrigir o que se foi,
e pensar o passado na garganta do amanhã.
É crispar o sono dos infantes,
com seus braços de inventar as buscas
em caminhos doidos e distantes.
É caminhar entre o porto e a lenda
de um tempo arremessado contra o mar.
Domar o leme das nuvens, onde mora
o mito e a glória de um deus a naufragar.


(do livro “50 poemas escolhidos pelo autor”, Edições Galo Branco)



sábado, 8 de novembro de 2014

Sõnia Sales



Costuro estrelas


Céu cinzento
luzes de coral.
O crepúsculo é apenas um
anúncio, enxertado de relâmpagos
no vestido azul que usarei
domingo.

Costuro estrelas
brilhos e vidrilhos.
Um alfaiate
no anil sideral.

As andorinhas pousaram
no Bezerro de Ouro,
o vinho escorre da taça
em chamas, mas em segredo
inventarei a Primavera,
cantarei no coral da igreja,
tocando meu violão, e usarei
no domingo o vestido azul,
costurado de estrelas.


(do livro “Vozes na paisagem – antologia de poetas brasileiros contemporâneos I”, organizador: Waldir Ribeiro do Val, Edições Galo Branco)



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Caio Carmacho



curta-metragem

5 minutos:

1 pra gozar

4 pra fumar um cigarro


Caio Carmacho – Nasceu em São Paulo, cresceu em Paraty e mora, atualmente, em Piracicaba.
Publicou Livre-me (2013, Editora Patuá).
Escreve no blog Noutratez, organiza todo ano o sarau poético Picareta Cultural e é um dos curadores da OFF FLIP de Paraty.



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Rasga-mortalha: poemas dos outros - W. B. Lemos



Antipoética


Saber para o que não nasci
é apenas, ao que vim, desconhecer:
dor sem consolo terreno,
renovável túmulo do pudor.
Nenhuma oração a qualquer deus,
nem mesmo súplica a musa alguma:
inepta afirmação de falência retórica.
Porque falsamente desprovido de tudo,
senhor arbitrário do desengano por vir:
a faculdade de pensar em desconforme aliança
à necessidade de se revoltar,
sem que haja ilusão quanto a agir
(adiante de mim, vai a ânsia por viver).
Não me pergunto para que o viço a mais,
mas gozo o maldizer que isso é nada
que me valha a pouca tinta e o remover da pena.
Ao invés da vulgar e surda loquacidade
– a sempre reeditada algaravia lapidar
do nada mais a dizer sobre o já dito –,
apenas um improdutivo (e indigno) silêncio.


(do livro “Rasga-mortalha: poemas dos outros”, Editora Circuito)