sexta-feira, 26 de julho de 2013

tudos - Nina Rizzi

outra cantiga de cego


desabotoa minha gola, dizia, amor

um resumo da pedagogia de nossa língua.


(do livro “tambores pra n’zinga”, Multifoco)


quinta-feira, 25 de julho de 2013

Elefantes na varanda - Leandro Jardim

Pequenas tragédias

Um sentimento de mais ou menos

Como uma meia pela metade do pé

Uma preguiçosa urgência

De caminhar pelo choque

De temperaturas, o calcanhar

Frio, dedos agasalhados, o peito

Morno


Entre o claro e o escuro, o céu

É mais ou menos o que sou

Uma brisa que acalora

Um feixe solar que entristece

 
Pergunto-me sobre o ocaso da luz

Ninguém responde

Olho em volta e tenho tudo

À exceção de um desejo mais vaidoso


Nenhuma desgraça será necessária

Quando sentimos as pequenas tragédias

Do mundo-dia, do minuto efêmero

Não há vergonha em estar triste

Mesmo o homem mais feliz

Quando sentimos as pequenas tragédias

 
Ou nos ensurdece o silêncio e recorremos

À música para que possa o mundo

Calar

E para que possa o grito mudo

Daquele que não teria motivos

Mas canta

Quando sentimos as pequenas tragédias


leandrojardim.blogspot.com

Escritor e compositor carioca. Publicou o livro de contos 'Rubores' (Oito e Meio, 2012); e outros dois de poesia, ‘Os poemas que não gostamos de nossos poetas preferidos’ (Orpheu, 2010) e ‘Todas as vozes cantam’(7Letras, 2008). Em 2011 lançou o disco virtual (EP) ‘Sementes musicais para um mundo cibernético’ em parceria com Rafael Gryner. Também possui composições com outros artistas como Diogo Cadaval, Clara Valente e Matheus Von Kruger. No blog ‘Elefantes na Varanda’ (leandrojardim.blogspot.com) podem ser encontrados links para esses e outros trabalhos.
Neste ano, se tornou pai de João.

 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Moinho - Eliza Morenno

Primeiro passo


Mais importante que o tamanho do seu sonho

é o tamanho da sua coragem.
 
 
(do livro "Relicário", Editora Multifoco)
 
 
 

terça-feira, 23 de julho de 2013

Taiyo Jean Omura

Sentinelas da noite escondidos em nuvens

sentinelas da noite escondidos em nuvens

um silêncio afogando os prédios

cães em outro bairro debatem o tempo

mães em silêncio sonham no passado


gatos brigam na beirada de muros

algum grilo desaparece de si mesmo

no japão já é outro dia

coração ainda bate acelerado

era pra cidade dormir agora

mas os prédios insistem em sonhar


uma moça tira o sutiã

coloca o pijama

e desliga o computador


parece algum alarme de carro

lá no final da rua

ou será minha respiração?


nessa noite tão escura

escondem no asfalto preto dessa rua

um suave leito da visão


pareceu um navio atrás do morro

e nem estou dormindo

sonho acordado submerso em vida

ou a vida sonha com o verso findo?

 
escuto meu coração batendo fora de mim

nas paredes e no teto

bate também por entre os prédios

é com o coração que arquiteto

 
sonhos sólidos

metro a metro

até chegar

 
longe do perto

 
 

um dos meus avôs veio do pantanal. o outro veio do japão. nasci na holanda. sou brasileiro. nasci num clube da esquina. no encontro de várias ruas. andei de skate. coloquei o pé no pacífico. vi a torre eiffel ascender suas luzes. numa paris sobrenatural

 provei vinho de mendoza. senti a brisa de uma geleira derretida. pelas bandas do canadá. tremi com um terremoto na costa rica. e subi num vulcão lá. dizem que três vezes por ano. quando o céu está totalmente aberto. dá pra ver o pacífico e o atlântico

 indefinir o longe e o perto. de cima daquele vulcão. um dia quero ver...

 já morei em frente ao mar. já quase me afoguei. tive amores imaginários. alguns amores deixei. vi um céu muito estrelado. de dar dó. lá em visconde de mauá

 e a cachoeira mais bonita aquela. acho que foi em serra do cipó. parecia um lugar de sonhos. de repente era. não canso de ver. o horizonte do arpoador. olhar o mar sem pressa. seja de onde for. funciona pra mim como uma reza.de repente é...

 quando eu nasci. uma anja loira, alta, holandesa disse: vai, Taiyo! ser outros na vida

 navegar é precioso. vai ser outros. outras pessoas. fazer poesia. do pantanal eu trago uma pré-história. um gosto de antes dos começos. como tocar no mar pela primeira vez

 achar os olhos da mãe e do pai quando bebê. do japão tem um olhar invertido. olhar o que está dentro. do brasil eu colhi um sorriso. a alegria de estar vivo. da holanda um olhar subversivo. como jogar uma bicicleta num canal.

 nasci mesmo foi numa esquina. na esquina entre o bem e o mal. caminhando em saltos

 pulando moças, cheiros, apartamentos. até encontrar aquela visão. que eu tinha desde pequeno. até ver o meu sol. viver, meu nome, viver. escrito em corpo de mulher.

 até encontrar carol



segunda-feira, 22 de julho de 2013

Matrimônio do Céu e do Inferno - William Blake

O argumento

 
Rintrah ruge & suas flamas lança no ar opresso;

Nuvens famintas sobre o abismo pendem.

 
Outrora dócil, e em perigosa senda,

O justo seguiu seu curso ao longo

Do vale da morte.

Há rosas plantadas onde crescem espinhos,

E sobre a charneca estéril

Zumbem abelhas melíficas.

 
Foi então plantada a perigosa senda,

E um rio e uma nascente

Sobre cada penhasco e sepultura,

E sobre ossos alvacentos

Criou-se barro vermelho.

 
Até que o vilão deixou as sendas do conforto

E, caminhando por perigosas sendas, conduziu

O justo a regiões estéreis.

 
Agora a furtiva serpente se esgueira

Em mansa humildade,

E o justo vocifera nos ermos

Onde vagueiam leões.

 
Rintrah ruge & suas flamas lança no ar opresso;

Nuvens famintas sobre o abismo pendem.


Assim como teve início um novo céu, e 33 anos já se passaram desde seu advento, revive o Inferno Eterno. E eis! Swedenborg é o anjo sentado sobre a sepultura: seus escritos as vestes de linho dobradas. Agora é domínio de Edom & retorno de Adão ao Paraíso; ver Isaís, caps. XXXIV & XXXV.
            Não há progresso sem Contrários, Atração e Repulsão, Razão e Energia, Amor e Ódio são necessários à existência Humana.
Desses contrários emana o que o religioso denomina Bem & Mal. Bem é o passivo que obedece à Razão. Mal, o ativo emanando da Energia.
Bem é Céu. Mal, Inferno.



The Argument
 

Rintrah roars & shakes his fires in the burden’d air;

Hungry clouds swag on the deep.

 
Once meek, and in a perilous path.

The just man kept his course along

The vale of death.

Roses are planted where thorns grow,

And on the barren heath

Sing the honey bees.

 
Then the perilous path was planted.

And a river and a spring

On every cliff and tomb,

And on the bleached bones

Read clay brought forth;

 
Till the villain left the paths of ease,

To walk in perilous paths, and drive

The just man into barren climes.

 
Now the sneaking serpent walks

In mild humility,

And the just man rages in the wilds

Where lions roam.

 
Rintrah roars & shakes his fires in the burden’d air;

Hungry clouds swag on the deep.

 
            As a new heaven is begun, and it is now thirty-three years since its advent, the Eternal Hell revives. And lo! Swedenborg is the Angel sitting at the tomb: his writings are the linen clothes folded up. Now is the dominion of Edom, & the return of Adam into Paradise. See Isaiah xxxiv & xxxv Chap.
           Without Contraries is no progression. Attraction and Repulsion, Reason and Energy, Love and Hate, are necessary to Human existence.
            From these contraries spring what the religious call Good & Evil. Good is the passive that obeys Reason. Evil is the active springing from Energy.
            Good is Heaven. Evil is Hell.


(do livro "Matrimônio do Céu e do Inferno e O Livro de Thel", Illuminuras)



domingo, 21 de julho de 2013

Toda a poesia - Augusto dos Anjos

Mystica Visio


Vinha passando pelo meu caminho
Um vulto estranhamente iluminado...
Para onde eu ia, o vulto ia a meu lado
E desde então, não andei mais sozinho!

Abraçou-me, beijou-me com um carinho
Que a um ser divino não seria dado...
E eu me elevava, sendo assim beijado
Muito acima do humano burburinho!

Falou-me de ilusões e de luares,
Da tribo alegre que povoa os ares...
– Assombrava-me aquela claridade!

Mas através daquelas falsas luzes
Pude rever enfim todas as cruzes
Que tem pesado sobre a Humanidade!






sábado, 20 de julho de 2013

Mário Chamie

O monge faz o hábito



O tecido entrecortado

do hábito

faz do monge

o avesso do ditado.

 

Não é o monge

que faz o hábito.

O monge

não é o hálito

que recria o incriado.

 

Mas se o monge

faz o hábito,

o hábito faz do monge

o hálito

de seu pecado.

 

Tudo raro e sempre claro:

na rima dessa esgrima

entre o monge

e o seu ditado,

seja aqui, seja lá ou seja longe,

sopra o hálito do diabo:

 

- ou o hábito é o tecido

que tece  o monge;

ou o monge é o vestido

que veste hábito.
 
 
do livro “Antologia comentada da poesia brasileira do século 21”, organização: Manuel da Costa Pinto, Publifolha)