segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O olho imóvel pela força da harmonia - William Wordsworth



O mundo nos atém a toda hora


O mundo nos atém a toda hora,
Ganhando e gastando, força desperdiçamos;
Pouco vemos na Natureza o que é nosso agora;
Mau negócio! Nossos corações doamos.
O Mar que se entrega ao luar,
Os ventos que silvam em lufadas,
Minguaram tal flores amarfanhadas,
Disso, em tudo estamos a destoar;
E isto não nos comove. – Deus! Prefiro ser
Um Pagão na crença obsoleta nutrido;
E neste agradável prado poderia ter
Vislumbres que me fariam parecer menos perdido;
Ver Proteu do mar aparecer;
Ouvir Tritão soprar seu búzio florido.


The world is too much with us; late and soon


The world is too much with us; late and soon,
Getting and spending, we lay waste our powers;
Little we see in Nature that is ours;
The Sea that bares her bosom to the moon;
The winds that will be howling at all hours,
And are up-gathered now like sleeping flowers;
For this, for everything, we are out of tune;
It moves us not. – Great God! I’d rather be
A Pagan suckled in a creed outworn;
So might I, standing on this pleasant lea,
Have glimpses that would make me less forlorn;
Have sight of Proteus rising from the sea;
Or hear old Triton blow his wreathed horn.


(do livro “O olho imóvel pela força da harmonia”, Tradução e Apresentação: Aberto Marsicano e John Milton, Ateliê Editorial)



domingo, 26 de janeiro de 2014

Terceira parte - Álvares de Azevedo



Fantasia


            Quanti dolci pensier, quanto disio!
                                                               DANTE

                C’est alors que ma voix
                Murmure un nom tout bas... c’est alors que le vois
                M’apparaître à demi, jeune, voluptuense,
Sur ma couche penchée une femme amoureuse!
.........................................……………..
Oh! toi que j’ai rêvée,
Femme à mes longs baisers si souvent enlevée
Ne viendras-tu jamais?..............
CH. DOVALLE

À noite sonhei contigo,
E o sonho cruel maldigo
Que me deu tanta ventura.
Uma estrelinha que vaga
Em céu de inverno e se apaga
Faz a noite mais escura!

Eu sonhava que sentia
Tua voz que estremecia
Nos meus beijos se afogar!
Que teu rosto descorava,
E teu seio palpitava,
E eu te via a desmaiar!

Que eu te beijava tremendo,
Que teu rosto enfebrecendo
Desmaiava a palidez!
Tanto amor tua alma enchia
E tanto fogo morria
Dos olhos na languidez!

E depois... dos meus abraços,
Tu caíste abrindo os braços
Gélida – dos lábios meus...
Tu parecias dormir,
Mas debalde eu quis ouvir
O alento dos seios teus...

E uma voz, uma harmonia
No teu lábio que dormia
Desconhecida acordou;
Falava em tanta ventura,
Tantas notas de ternura
No meu peito derramou!

O soído harmonioso
Falava em noites de gozo
Como nunca eu as senti,
Tinha músicas suaves
Como no canto das aves
De manhã eu nunca ouvi!

Parecia que no peito
Nesse quebranto desfeito
Se esvaia o coração.
Que meu olhar se apagava,
Que minhas veias paravam,
E eu morria de paixão...

E depois... num santuário,
Junto do altar solitário,
Perto de ti me senti;
Dormias junto de mim...
E um anjo disse assim:
“Pobres amantes, dormi!”

Tu eras inda mais bela –
O teu leito de donzela
Era coberto de flores...
Tua fronte empalecida,
Frouxa a pálpebra descida,
Meu Deus! que frio palor!...

Dei-te um beijo – despertaste,
Teus cabelos afastaste
Fitando os olhos em mim...
Que doce olhar de ternura!
Eu só queria a ventura
De um olhar suave assim!

Eu dei-te um beijo, sorrindo
Tremeste os lábios abrindo,
Repousaste ao peito meu...
E senti as nuvens cheirosas,
Ouvi liras suspirarem,
Rompeu-se a névoa... era o céu!...

Caía chuva de flores
E luminosos vapores
Davam azulada luz...
E eu acordei... que delírio,
Eu sonho findo o martírio
E acordo pregado à cruz!


(do livro “Lira dos vinte anos”, Martin Claret)



sábado, 25 de janeiro de 2014

Vera Pedrosa



Cortejo


Tendo estado
toda uma tarde
ouvindo
um tempo branco
sentindo dedos de água
descidos da noite.
Figuras
surgem paralelas
como saídas agora
da cal da parede.
Ali onde a sombra joga
na brisa de outra água.
De perto,
a  superfície do muro
para:
distração


(do livro “26 poetas hoje”, organização: Heloísa Buarque de Hollanda, Aeroplano)