quarta-feira, 26 de março de 2014

A seco - Bruna Mitrano



7. Só mãe de criança abortada reconhece o amor no vermelho, o corpo do animal morto.

2. O sangue no antebraço que a luz baça fazia preto. Punho cerrado, uma lasca de vida agarrada como última. Nada importa, se há dor.

7.5 Amarra, pendura e deixa pingar, que a terra dura apaga a última gota.

4. Havia uma mulher de costas, cabelos curtos, pelos grossos revolvidos na nuca. Quis ver seus pentelhos, os fios longos entretrançados como um cobertor felpudo.

4.5 Acaricio com a palma da mão aberta.

6. Visto a calça depressa, preciso de carne fresca.

8. A galinha me olha de um olho só, ciclope de ladinho, frango assado, papai e mamãe e o açougueiro gargalha, se sacode todo mole, tem larva na carne fresca e não tem graça nesse lugar.

Nota (1): Pegar o frango é a parte fácil. Tem que chegar por trás, de mansinho. É preciso suspendê-lo pela base das asas e mantê-las unidas. Evite movimentar o braço. O risco de giz já deve estar traçado no chão. Encoste o bico da sua presa no início da linha reta. Espere dois minutos e terá um frango hipnotizado [não peça a ele para imitar gente, isso só funciona na tevê]. Agarre pelo pescoço, com as duas mãos; você pode escolher qualquer espaço entre ossinhos e torcer. É importante ouvir o plect. A morte deve ser rápida, caso contrário, o animal fica tenso e a carne endurece. Talvez ele estrebuche. Segure-o pelas patas e escorra o sangue numa bacia. Depois, deixe-o descansar por no máximo cinco minutos numa panela de água fervendo, para que as penas soltem com facilidade. Feito isso, depenhe e retire os miúdos, enfiando, com cuidado, uma das mãos pela cloaca. Com um facão bem amolado, corte as partes duras (patas, pescoço). Por fim, tempere, regue o peito com o sangue despejado na bacia, leve ao fogo e, após o tempo necessário, coma-o merecidamente.

3. Sonhei que eu inundava em vermelho. Meu corpo a inchar como uma esponja. Acordei em lençóis úmidos e escorreguei da cama como uma enguia. Chove lava há uma semana.

1. Se você não dorme sempre no mesmo lugar, nunca sabe onde está, antes de abrir os olhos.

5. Chovo.

9. Existe uma coisa perto da morte que não consigo alcançar. Algum vazio nessa paz fajuta.


(do livro "Algum vazio nesta paz fajuta", Edital)



terça-feira, 25 de março de 2014

Janaína Tavares



Algodões de Giz


O acabamento da obra. A degustação do aperitivo e do processo. Manter a calma. Suco de maracujá. Lembrar-se de respirar. Lembrar-se de esquecer. Se acostumar com a saudade e com a ausência dele na cadeira ao lado. O acontecer no agora e não no porvir. Rabisco de desejo na brecha do intervalo. Sinos silenciosos. Luz elétrica. Azulejo desbotado. A água sanitária. Dor de cabeça, nas costas e nas pernas. Caminho errado para a farmácia. O famoso desconserto. Nenhuma mensagem no celular. Caminhada pelo calçadão. Cansaço humano. Lixo. Funk e Rock clássico. Brinquedos pirateados. Crianças roubadas de si. Mochila rasgada. Palavras encostadas no ouvido. Beijo sabor nuvem. Coração pedra molhada de cachoeira. Van. Túnel do tempo. Mãos perdidas. Sentimentos perdidos. Outros achados. Doce feito de algodão na ala onírica.


Janaina Tavares, nascida e criada em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense. Estudante de Letras-Espanhol na UFRRJ. Foi do Movimento Estudantil e hoje atua na área da cultura liderando o Sarau V em Nova Iguaçu.



segunda-feira, 24 de março de 2014

Ana María Moix



Fechei a porta. Desci as escadas. Deparei-me com vigia e se partiu o silêncio. Supliquei a ele que não dissesse, mas disse: Hoje não virão, senhorita; não os atrai. Ainda não havia retornado, na esquina o ouvi falar ao guarda da taberna: essa moça está louca. Todo dia, às doze, desce para abrir a porta aos mortos. Tive que deter o tio Jacobo que queria desafiá-lo a um duelo. Tio Jacobo morreu antes dos 36 e não estava acostumado com a má educação dos vigias ao tratar as senhoritas.


Cerré La puerta. Bajé las escaleras. Tropecé com el sereno y se ronpió el silencio. Le suplique com um gesto que no lo dijera y lo dijo: Hoy no vienen, señorita; no les toca. Y aún no había vuelto yo La esquina oi cómo Le iba com el cuento al guarda de la taberna: Está loca esa chica. Cada día, a las doce, baja para abrir la puerta a los muertos. Tuve que retener a tío Jacobo que queria retarle a um duelo. Tío Jacobo murío antes del los 36 y no estaba acostumbrado a la mala educación de los serenos para com las señoritas.


(tradução: Gustavo Petter - http://agradaveldegradado.blogspot.com.br/)

Ana María Moix, nasceu em Barcelona 1947, irmã do também escritor Terence Moix (1942-2003). Foi a única poeta incluída na lendária antologia Nueve novísimos poetas españoles (1970) em companhia de Leopoldo María Panero, Manuel Vázquez Montalbán, Pere Gimferrer. Publicou as obras de poesia: Baladas Del Dulce Jim, Call me Stone e No time for Flowers; e obras em prosa, por exemplo Walter, ?por qué te fuiste? Retratando a homossexualidade e os conflitos em uma Barcelona onde impera a atmosfera do pecado e da culpa. Poeta, editora, tradutora, jamais alheia às causas políticas de seu país, desde a época do antifranquismo. Morava com sua companheira e os filhos dela. Morreu de câncer.



domingo, 23 de março de 2014

A teus pés - Ana Cristina Cesar



Samba-canção


Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhado na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras,
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz...


(do livro “A teus pés”, Editora Brasiliense)



sábado, 22 de março de 2014

Gonçalves de Magalhães


Noite tempestuosa

Que tempo horrível;
Que noite escura;
Nem uma estrela
No céu fulgura!
Negros vapores
Vão se estendendo
E o espaço enchendo;
Na serra ao longe
Ronca o trovão.

Fuzis cintilam;
E o vento irado
Nas trevas zune
Desenfreado.
Espessas nuvens,
Que no ar negrejam,
Rotas gotejam
Pertinaz chuva,
Que alaga o chão.

Noite mais negra
Minha alma enluta;
Maior tormenta
Cá dentro luta.
O quadro horrendo
Da natureza
Mal a fereza
Exprimir pode
Do meu sofrer.

Eu neste leito,
À dor exposto,
Somente choro
Por ver teu rosto.
Tudo mereces,
Oh minha bela;
Tu és a estrela
Que só procuro
Constante ver.

Chovesse embora,
Não me importara;
A chuva, o vento,
Tudo afrontara.
Nem fora muito,
Se a dor cruenta,
Que me atormenta,
Não fosse assídua
Em seu rigor.

Mas ah! não posso,
Não posso erguer-me!
Manda suspiro
Que venha ver-me.
Por ti mandado
Esse suspiro
Ao meu retiro
Daria alívio
À minha dor.

Aqui sozinho
Para animar-me
Contigo todo
Quero ocupar-me.
A tua imagem
Ante mim vaga
Ela me afaga
E co’um sorriso
Me faz sorrir.

Teu doce nome
Pronunciando,
Meu sofrimento
Vou acalmando.
O que mais sinto
É a inclemência
Da dura ausência
Que sem remédio
Devo sentir.


(do livro "Poesia brasileira - Romantismo", organizadores: Valentim Facioli & Antonio Carlos Olivieiri, Editora Ática)