segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Ântara, filho de Chaddad - Al-Muallaqat



Sabedoria


Disseram-me que Amru é um ingrato; a ingratidão é uma armadilha para a alma do benfeitor.

Tenho ainda na memória os conselhos do meu tio naquela alvorada, quando os lábios se contraíram, expondo o brilho da boca:

no tumulto da guerra, não há entre heróis apelos contra a dor da morte, senão rugidos.


(do livro “Os poemas suspensos”, tradução direta do árabe, introdução  e notas: Alberto Mussa, Editora Record)



domingo, 26 de outubro de 2014

Concerto a céu aberto para solos de ave - Manoel de Barros



Prefácio


Assim é que elas foram feitas (todas as coisas)
– sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
dependimentos demais
e tarefas muitas –
os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
que as moscas iriam iluminar
o silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
que as moscas não davam conta de iluminar o
silêncio das coisas anônimas 
– passaram esta tarefa para os poetas.


(do livro “Manoel de Barros – Poesia Completa”, Editora Leya)



sábado, 25 de outubro de 2014

Valeria Veiga Fernandes



Sexto sentido


Ainda tenho um sonho
Apesar das desavenças
Mesmo com o coração em abandono
E com tanta indiferença
Mesmo sem o brilho em meus olhos
E com a alma no espelho
Afogo sentimentos em palavras
Sem que ainda possa tê-los
Na verdade o que faço
É desvendar esses mistérios
A vida em plena forma
Reformando com meus erros
E como eu erro!
Atrás da velha chama
Ainda espero o que o corpo reclama
Na busca de um só na multidão
Faz-se eterna a sensação
De não ter sentido
E sem palavras, olhos nos olhos
Em pouco tempo, um sorriso
Valeu a pena ter vivido.


(do livro “O labirinto de espelhos”, Editora De Leon)



sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Camila Senna



Ação


Submersa em par
me fiz ímpar
toquei o ponto Gê
da minha respiração
Dei cordas pra minha ação..
Respirando
eu piro
eu crio
eu cio.




Moradora de Nova Iguaçu e ativista cultural, faz parte do Coletivo Pó de Poesia e Coletivo Feminino Fulanas de Tal. Recebeu o prêmio personalidade 2010 de poesia pela Artpop, Academia de Artes de Cabo frio, e participa de oito antologias poéticas. Entende que versos nos muros são flores, por isso escreve em alguns muros da sua cidade, ou não. Acaba de lançar o projeto Poesia Segunda Pele, uma intervenção poética despudorada de versos ma(nus)critos sobre o nu da pele feito tábua de esmeraldas.



quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Afrodite em verso - Paula Cajaty



O som do vazio


a música preenche seus vazios
ninguém pode me livrar
de mim mesma a essa altura
deixo-me ficar sem medo do nada
finjo que no rumo da estrada
ainda posso achar um caminho.


(do livro “Afrodite em verso”, Editora 7Letras)