quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Os tigres cravaram as garras no horizonte - Augusto de Guimaraens Cavalcanti



Copacabana


não ter medo de trapo
nenhum

dia-fantasma
na cidade-transparente

aproveitar bem a decadência do lugar
não somente as lácteas vias valem a pena

para o grande girassol
todo relógio dilacera sereias

e assim faço meu poema de silêncios


(do livro "Os tigres cravaram as garras no horizonte", Editora Circuito)



quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Boca do estômago mordendo o soco - Marcos Bassini



Mundo perfeito


existe um mundo perfeito
onde não se enxerga o que se vê
                          mas o que se fala

apontam para uma berinjela
dizendo: morango
    e logo estão se refestelar
com uma fruta hipertrofiada

para uma mulher sem atrativos
                basta dizer: sou linda
e logo forma-se, na porta de sua casa
uma fila de pretendentes

neste mundo em que a realidade
                            não é o que se é
mas o que se profere
        não existem falsários
hipócritas, nem corruptos

lá, ao transformarem-se
   no que dizem de si mesmos
a mentira deixa de ser mentira

passa a ser, sei lá, uma verdade
         que se reabilitou a tempo


(do livro “Senhorita K”, Editora Patuá)



terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Su Noguchi



Hoje.
Dia de medir palavras, entre pronúncias,
temperaturas, de corpos já mortos,
distâncias, entre polos que se traem,
formas químicas, de inaceitáveis explosões,
criações de coisas, sem edital,
ressacas, de ontem, de tanto ontem.


Su Noguchi, poeta, contista e artista visual, formada em Propaganda e Marketing, retomou o caminho da literatura há cerca de um ano, para se dedicar integralmente à ela. Participa do Fora de Área, coletivo de poesia, com o qual tem se apresentado em saraus e eventos de arte. Por acreditar que a poesia deve estar no cotidiano das pessoas, concorreu em duas edições do Tagarela, slam de poesia que acontece no meio de uma praça pública, tendo vencido a mais recente. Finaliza seu primeiro livro de poesia.






segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Beowulf



XIII


Vários varões (assim eu ouvi) vieram
cingir, de manhã, o salão de dádivas.
Líderes de povos (os quais de perto
e, também, de tão longe lá chegavam)
Atravessaram os caminhos amplos
pra essa maravilha poder mirar:
do monstro vestígio mortal. A vida
tirada pesar lhes não provocava.
Àqueles rastros todos assistiam -
traços de sua vida: as trilhas de sangue
rumo (malfadado em fuga) ao refúgio
à beira-mar - batido na batalha.
Surgiu, na água, sangue. Quentes, subiam,
tão horríveis (cruentas do combate) ondas.
A parecer destinado (privado
de alegria), ele a vida ali largava: a alma
pagã rumo (do refúgio no pântano)
ao inferno. E vieram barões veteranos,
(e tantos jovens também) em jornada
de alegria. Lá chegavam, afinal,
cavalgando, da beira-mar, corcéis.
Propagou-se de Beowulf o portento.




(do livro "Beowulf", Tradução: Erick Ramalho, Tessitura Editora)


 

domingo, 22 de dezembro de 2013

Livro primeiro - Casimiro de Abreu



III



Saudades


Nas horas mortas da noite
Como é doce o meditar
Quando as estrelas cintilam
Nas ondas quietas do mar;
Quando a lua majestosa
Surgindo linda e formosa,
Como donzela vaidosa
Nas águas se vai mirar!

Nessas horas de silêncio,
De tristezas e de amor,
Eu gosto de ouvir ao longe,
Cheio de mágoa e de dor,
O sino do campanário
Que fala tão solitário
Com esse som mortuário
Que nos enche de pavor.

Então – proscrito e sozinho –
Eu solto aos ecos da serra
Suspiros dessa saudade
Que no meu peito se encerra.
Esses prantos de amargores
São prantos cheios de dores:
– Saudades – dos meus amores,
– Saudades – da minha terra!


(do livro “As primaveras”, Martin Claret)