sábado, 7 de setembro de 2013

Carla Kinzo

Ele se pergunta
onde dará essa estrada
Não sabemos
se podemos trafegar ao infinito
Não sabemos
se somos
livres
porque não estamos
enclausurados

E ainda sem saber
nos lançamos
juntos
Sabemos
pela rua, no asfalto
entre palavras fugitivas
infratoras
desatadas de seus esconderijos
das paredes de suas cascas


(da antologia "Vinagre - uma antologia de poetas neobarrocos")


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Entreaberta - Patrícia Del Rey

Querer: Verbo transitivo – Verbo intransitivo – Substantivo masculino


Dialogar com teus olhos

beijar seus cabelos

os pelos nas minhas coxas

você me deixando frouxa

tua barba na minha nuca

teu gosto no meu umbigo

teu som no meu ouvido

quero muito mais,

muito mais do que a gente tem sido.
 

(do livro “Entreaberta”)
 


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Impublicáveis - Ana B.

Bizarre love triangle



Com delicadeza ela insistia meu amor

Amanhã não tem futuro

Mas se andassem muito apressados talvez tropeçassem

Se andássemos trôpegos

Ele queria um plano perfeito filmado por Tarkovsky.

A terceira pessoa impõe disfarces.


(do livro "Impublicáveis", Móbile Editorial)








quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Demasias - Mariana Bernardes

Flor


O que não tem raízes

Anda pelas ruas como folhas

As diretrizes já não me são de bom grado

Nem se são dadas pelos outros

São folhas, plantas, mas não flores.

Flores escondem sua beleza dentro de si

E apenas mostram-na para morrer

Pois desabrochar, abrir-se só pode ser compensado

Por um descanso eterno.


(do livro "Demasias", Editora Multifoco)


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Diana Behrens

Nós

 

quando nossos silêncios conversam
estraçalham a distância
lavando a angustia de que nos vendo no outro
não sabemos se et´s em nós
nós
nó no peito é botão de flor que se abre pra mostrar queé vermelho por dentro


Me uso como atriz para descobrir possibilidades e sublimar o ridículo. Me uso como cineasta para entender a diferença entre ser e ser vista. Sou bailarina e agora dei pra cantar e compor. Escrever acontece. Integro dois grupos de teatro e um coletivo que pensa relações urbanas e um que pensa relações na musica. 
Me interesso é por relacionamento humano. Meu trabalho e minha vida são me experienciar em comunicação




segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Um esquema de XXX Cantos (1930) - Ezra Pound

CANTO XVII


Assim as vinhas se despencam de meus dedos

E as abelhas pesadas de pólen

Deslocam-se lentas pelos rebentos do vinhal:

       chirr – chirr – chir-rikk – um som felino,

E os pássaros sonolentos nos galhos.

      ZAGREUS! IO ZAGREUS!

Com o claro-pálido nascente do céu

E as cidades engastadas nas colinas,

E a deusa dos belos joelhos

Movendo-se lá, com o bosque de carvalhos ao fundo,

A verde escarpa, com os sabujos brancos

                        saltando junto dela;

E dali abaixo à boca da enseada, até a noite,

Água plana em minha frente

      e as árvores crescendo n’água,

Troncos de mármore gerados na quietude,

No passado os palazzi,

                                     na quietude,

A luz agora, não do sol,

                                   Chrysophrase,

E a água verde-claro e azul-claro;

Acima, para os grandes penhascos de âmbar.

                                                                        Entre eles,

Gruta de Nerea,

       ela, como enorme concha curva,

E o bote arrastado sem ruído,

Sem odor de singradura,

Nem grito de ave, nem qualquer rumor de vaga,

Nem salpico de porco-marinho, nem qualquer rumo de vaga,

Dentro de sua gruta, Nerea,

                                           ela, como enorme concha curva

Na suavidade do rochedo,

                                          penhasco cinza ao longe,

Perto, os pórticos de âmbar escarpados,

E a vaga,

                                         verde-claro e azul-claro,

E a gruta de branco salino e cintilante púrpura,

                               fria, pórfiro polido,

                               a rocha roída pelo mar.

Nenhum grito de gaivota, nenhum ruído de porco-marinho,

Areia malva, e nenhuma frieza por lá,

                           a luz sem ser do sol.

Zagreus, apascentando suas panteras,

       a gleba clara como nas colinas luminosas.

E, sob as amendoeiras, deuses,

                         com eles, choros nympharum. Deuses,

Hermes e Atena,

                            Como agulha de bússola,

Entre eles tremulou –

Para a esquerda fica o sítio dos faunos,

                           sylva nympharum;

A mata densa, o tosco bosque,

              a corça, o pequeno cervo malhado,

              saltam pelos arbustos em riste,

                            como folha seca na amarelo.

E, por um atalho nas colinas,

                    A grande aleia de Memnons.

Além, mar, crinas divisadas sobre as dunas

Mar noturno agitando cascalhos,

Para a esquerda, a aleia de cipreste.

                                                         Veio um barco,

Um homem sustentando sua vela,

Conduzindo-o com remo preso às falcas, dizendo:

“Lá, na floresta de mármore,

       as árvores de pedra – emersas d’água –

       as frondes de pedra –

       lâmina de mármore, sobre lâmina,

       prata, aço sobre aço,

       bicos de prata erguendo-se e cruzando-se,

       proa ajustada contra proa,

       pedra, camada sobre camada,

       reflete o ouro a flama de uma noite”

Borso, Carmagnola, os artífice, i vitrei,

Para lá, certo tempo, tempo após tempo,

E as águas mais ricas do que vidro,

Ouro bronzeado, brasa sobre prata,

Potes de tinta à luz do archote,

O clarão de vagas sob proas,

E bicos de prata erguendo-se e cruzando-se.

    Árvores de pedra, alvo e rosalvo na treva,

Ciprestes pelas torres,

       Amontoados sob cascos, à noite.

 

                        “No florescer o ouro

Doura a aura ao seu redor.”...

 

Agora, indiferente na toca, sarça meio sobrearqueada,

Um olho para o mar, através da fresta,

Luz cinza com Atena.

Zotar e seus elefantes, o dourado tecido no lombo,

O sinistro, sacudido, sacudido.

       a sua legião de dançarinas.

E Aleta, pela curva da encosta,

           com os olhos voltados para o mar,

       e algas nas mãos,

Brilho salino com a escuma,

Koré pela campina luzente

      com poeira verde-cinza no relvado:

“Pelo momento, irmão de Circe.”

Braço debruçado em meu ombro,

Viu o sol três dias, o vulvo sol,

Como um leão erguido sobre areia lisa;

                                                               e naquele dia,

E por mais três e nenhum depois,

Esplendor, como o esplendor de Hermes,

E então saiu ao mar

                                para o lugar de pedra,

Branco pálido sobre água,

                                           água conhecida,

E a branca floresta de mármore, vergada ramo a ramo.

A fronte encurvada pela pedra,

Para lá foi Borso, quando lhe desfecharam a flecha farpada,

E Carmagnola, entre as duas colunas,

Sigismundo, depois do naufrágio na Dalmácia,

      Crepúsculo como o voo do gafanhoto.
 
 
(do livro "Os cantos", Tradução: José Lino Grünewald, Nova Fronteira)
 
 
 

 

domingo, 1 de setembro de 2013

Linguagens alheias - João Cabral de Melo Neto

O último poema



Não sei quem me manda a poesia

nem se Quem disso a chamaria.

 
Mas quem quer que seja, quem for

esse Quem (eu mesmo, meu suor?),

 
seja mulher, paisagem ou o não

de há que preencher os vãos,

 
fazer, por exemplo, a muleta

que faz andar minha alma esquerda,

 
ao Quem que se dá à inglória pena

peço: que meu último poema

 
mande-o ainda em poema perverso,

de antilira, feito em antiverso.
 
 
(do livro "Agrestes", Alfaguara)