quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Never - Delmo Fonseca



#paravivianedesales


à sombra de um centenário sândalo
numa manifestação pacífica
transbordante de amor
se aninhava um casal de vândalos


(do livro "Never", Editora Mar de Letras)



terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Flávia Iriarte

Cinema

Pura sincronia:
as nuvens o asfalto a paisagem andam.
árvores correm no meu carro.
Paisageio.

Você, sentado no banco carona
fica aguardando entrar em cena.
Olho-te de soslaio, você me tem diagonal
nessa nova sequência somos piloto e copiloto
nada mais, mais alguém
e te caberia o banco de trás.

Em off
Li na Ego que a Lindsey Lohan está internada numa clínica de reabilitação junto com o Mike Tyson.
Um tal de Joe Francis disse que Paris Hilton chupa pau melhor do que ela.

Quando o Cinema começou a falar, os filmes entraram em franca decadência.
Deixemos o limpador de para-brisas fazer seu trabalho. A chuva está apertando
e eu não consigo falar enquanto dirijo.
Você faz de mim videoclipe. Picota-me em mil planos descaradamente ordinários.
Eu persigo o plano-sequência da pista por detrás do vidro embaçado.

Corta.

Passemos ao vídeo-arte non-sense.
Ele nos desexplica muito bem.
Monto-te e desmonto-te com meu material velho:
nosso beijo no pedágio, nossa música favorita.

Seu beijo tem o som de uma fila de carros buzinando enlouquecidos.


Flávia Iriarte nasceu em 1985. Formou-se em Cinema pela UFF e fez mestrado em Literatura, Cultura e Contempo­raneidade na PUC-Rio. Em 2010, fundou a Oito e meio (www.oitoemeio.com.br), editora com foco na publicação da lite­ratura contemporânea. É autora do livro "Todo homem naufraga".



segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Spleen e ideal - Charles Baudelaire



LXXVII

Spleen

Sou como o rei sombrio de um país chuvoso,
Rico, mas incapaz, moço e no entanto idoso,
Que, desprezando do vassalo a cortesia,
Entre seus cães e os outros bichos se entedia.
Nada o pode alegrar, nem caça, nem falcão.
Nem seu povo a morrer defronte ao balcão.
Do jogral favorito a estrofe irreverente
Não mais desfranze o cenho deste cruel doente.
Em tumba se transforma o seu florido leito,
E as aias, que acham todo príncipe perfeito,
Não sabem mais que traje erótico vestir
Para fazer este esqueleto enfim sorrir.
O sábio que ouro lhe fabrica desconhece
Como extirpar-lhe ao ser a parte que apodrece,
E nem nos tais banhos de sangue dos romanos,
De que se lembram na velhice os soberanos,
Pode dar vida a esta carcaça, onde, em filetes,
Em vez de sangue flui a verde água do Letes.


LXXVII

Spleen

Je suis comme le roi d'un pays pluvieux,
Riche, mais impuissant, jeune et pourtant très- vieux,
Qui, de ses précepteurs méprisant les courbettes,
S'ennuie avec ses chiens comme avec d'autres bêtes.
Rien ne peut l'égayer, ni gibier, ni faucon,
Ni son peuple mourant en face du balcon.
Du bouffon favori la grotesque ballade
Ne distrait plus le front de ce cruel malade;
Son lit fleurdelisé se transforme en tombeau,
Et les dames d'atour, pour qui tout prince est beau,
Ne savent plus trouver d'impudique toilette
Pour tirer un souris de ce jeune squelette.
Le savant qui lui fait de l'or n'a jamais pu
De son être extirper l'élement corrompu,
Et dans ces bains de sang qui des Romains nous viennent,
Et dont sur leurs vieux jours les puissant se souviennent,
Il  n'a su réchauffer ce cadavre hébété
Où coule au lieu de sang l'eau verte du Léthé.


(do livro "As flores do mal", tradução: Ivan Junqueira, Editora Nova Fronteira)



domingo, 1 de dezembro de 2013

Manuel Bandeira - 50 poemas escolhidos pelo autor



Pneumotoráx


Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

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- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


(do livro "50 poemas escolhidos pelo autor", Cosac Naify)