domingo, 8 de dezembro de 2013

Retrato do artista - João Cabral de Melo Neto



Poema


Trouxe o sol à poesia,
mas como trazê-lo ao dia?

No papel mineral
qualquer geometria
fecunda a pura flora
que o pensamento cria.

Mas à floresta de gestos
que nos povoa o dia,
esse sol de palavra
é natureza fria.

Ora, no rosto que, grave,
riso súbito abria,
no andar decidido
que os longes media,

na calma segurança
de quem tudo sabia,
no contato das coisas
que apenas coisas via,

nova espécie de sol
eu, sem contar, descobria:
não a claridade imóvel
da praia ao meio-dia,

de aérea arquitetura,
ou de pura poesia:
mas o oculto calor
que as coisas todas cria.
                                               1947


(do livro “O artista inconfessável”, Alfaguara)




sábado, 7 de dezembro de 2013

Heitor Ferraz



Manhã de dezembro


Ponto ignorado
dos astros
do voo retilíneo dos aviões
da multidão
das saias (coxas
queimadas de sol)

(dentro desse ponto
outros pontos ignorados
do próprio círculo)

Estirado
na cama – depois do banho,
do café,
da falta de ideias –
ponto pleno
de sol
(ignorado sol)


(do livro “Esses poetas – uma antologia dos anos 90”, organização: Heloisa Buarque de Hollanda, Aeroplano Editora)



sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Mulheres - Paul Verlaine



Gozos


Monta sobre minha cabeça
De maneira que minha língua
Não possa mais tagarelar,
Sendo obrigada a fazer festas
Na tua buceta e no teu cu,
Que me abateram para sempre,
Como, aliás, todo o teu corpo
E essa alma pouca celeste,
E este espírito carniceiro
Que devora em mim o ideal
Tornando-me o mais putaneiro,
Eu que era puro, angelical,
Até o dia em que te encontrei,
Há tantos anos, tantos já!
Isso, ajeita-te bem e mostra
Com alguns gestos complacentes:
No fundo amas este teu velho
Ou pelo menos o suportas
Quanto te chupa e te mastiga,
Como um mais jovem, mais bonito,
Concedo, mas nunca tão gostoso
Na ciência e no desempenho.
Ai, buceta de cheiro bom!
Nela enfio o nariz, a língua,
Faço o diabo nela, farejo,
Babujo, remexo, engrolo,
Aspiro e ah, me delicio:
Buceta de cheiro sacana
Com o seu montículo fulvo,
Cercada de penugem ruiva
Até o buraco milagroso,
Onde remexo, onde babujo,
Onde farejo e onde babo
Com a atenção meticulosa
E o fervor cego de um escravo
Livre de todo o preconceito.
A racha adorável que já
Lambi amoroso desde o dorso,
Passando, depois, pelo poço
Onde fico uma temporada
Prestando as devoções de praxe,
Me conduz direto à fenda
Gloriosa da minha donzela.
Lá, eu faço um salamalaque
Esotérico, inteiramente,
Aquele clitóris molhado.
Aí minha cabeça de baixo,
Irritada com tantos embates
Se desmancha em alva retórica
Mas se acalma com tais premissas.

E adormeço entre tuas coxas
Que, com tanta emoção amável,
De cansaço, se distenderam.


(do livro "Poema eróticos - Para ser caluniado", Apresentação, seleção e tradução: Heloisa Jahn Editora Brasiliense) 



quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Arqueologias - Luiz Ruffato



Envelhecemos, e teus projetos
aos sonhos retornam.
Aquela casa de campo,
quantos iriam visitá-la?
O filho inconcebido,
como mesmo irias nomeá-lo?
A viagem à Europa,
            este país, que naquele.

Envelhecemos, no entanto,
e tudo à volta rui.
A cidade irreal,
envolta em névoa, tua.

Envelhecemos, e teus sonhos
em sonhos permanecem.


(do livro "As máscaras singulares", Boitempo Editorial)