terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Fefas Tatagiba



Ônibus 507


nessa mata de zinco
assassino o que sinto
invento instintos
alimento o frio
enchente de dor e gente
gastando com o asfalto
silêncio
a buzina acertou o meu cérebro
ainda bem que não tenho coração
ofertas de cinismo
pernas abraçam o vento
o mundo num passe
passa na janela
o ônibus que me embala
não se abala
vai levando seu mundo
todos mudos
cheios
lotados de vazios
que extravasam
despencando gente em pontos
que ninguém acerta


Fernanda Tatagiba nasceu em 1984 em Vitória no Espírito Santo, atualmente reside na cidade do Rio de Janeiro. Lançou seu primeiro livro de poemas À Sombra das Coisas Turvas em 2011 pela lei de incentivo de cultura e arte de Vila Velha e pela Editora Cousa. Atualmente prepara seu segundo livro de poesias Labirinto Mínimo. 



segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Poemas de valter hugo mãe - valter hugo mãe



A capitalização do amor


não escondemos que atendemos a
capitalizar o amor, entregando
amplamente os nossos melhores
momentos às raparigas mais carentes.
o amor, sabemos bem, é o caminho directo
para a inutilidade, e nós procuramos as
raparigas que mais rapidamente se
inutilizem perante as coisas clássicas
da vida. não nos queremos atarefar com
a vulgaridade, e gostaríamos até de
impregnar cada gesto com características
alienígenas, mas o tempo escapa-se e o
dinheiro também e, se só pensamos no amor,
não temos como fazer de outro modo
senão vendê-lo entusiasticamente, como
fontes de trovões bonitos jorrando nas
praças mais movimentadas das cidades. e
as raparigas correm para sob nós urgentes
a cheias de vida, férteis de tudo quando o
amor se abate sobre elas. e uma alegria rica
de se ver, e nós a balançar os braços para
chamar a atenção de mais e mais e
já nem sabemos como parar. somos forças
incontroladas, à semelhança de mecanismos
ferozes da natureza, e só sairemos daqui
quando desfalecermos de amor até
pelas raparigas mais feias


(do livro "Portugal, 0", Oficina Raquel)



domingo, 15 de dezembro de 2013

Um jeito e amor - Adélia Prado



Amor violeta


O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco.  Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.


(do livro "Bagagem", Editora Record)


 

sábado, 14 de dezembro de 2013

Wellington França



O carreto


Carreto catador faz da sucata alimento.
Cascalhos metálicos
no ferro velho local
viram arroz e feijão
na magia das mãos.

Extrativismo ribeirinho carregado com carinho.
Nas margens do rio limpo
capim santo arrancado
chora chá matutino.
Jurureba tirada no pé
curtida na aguardente, vira licor.
Receita de mestres do nordeste
aprendidas com amor.

Pausa, carrinho de lado o território marcar.
Mergulhos no rio, água iluminada.
Em poucas décadas
escura e fedorenta
repleta de lixo e feto
despejado por gente sem afeto.

Renda pequena do micro frete compra luxo.
Erva cidreira colhida no quintal.
Água fervida, açúcar cristal.
Cuscuz de fubá
no vapor da chaleira
regado no leite como se fosse Natal.
Leite “batizado” com água de poço
comprado na carroça
das mãos do moço.
No tempo de vaca gorda
se muito, farinha torrada.
Torresmo? Iguaria.

Da pequena tragédia ao grande troféu.
Quase lenha, laminada e forte
que já transportou bacalhau
vindo das águas frias do norte,
transformada transportadora
para sustento geral.

Domingo, o melhor dia
Com carrão de madeira:
frete na feira.

Caixote de braço.
Rolimãs de aço
turbinadas no patinete.
Carreto garoto
Tocado do berço
para fortalecer o orçamento.

De repente.
Par de botas.
No ombro divisas.
Esquartejado o carrão!
Pena capital
por não pagar pedágio...

Seu pequeno construtor
engole choro.
Remove lágrimas.
Reúne cacos.
Conserta o carro.
Retorna arretado
ao trabalho arriscado.

Assim o caixote que já foi árvore.
Marujo em cargueiros do Atlântico
carregando peixe salgado,
vira trabalho, brinquedo e troféu
em um canto qualquer do mundo
num bairro de muitos pobres
e alguns poucos ricos de pano e papel.


(do livro “Flupp pensa”, Aeroplano Editora)