sábado, 21 de dezembro de 2013

Miguel Torga



Ressurreição


Porque a forma das coisas lhe fugia,
O poeta deitou-se e teve sono.
Mais nenhuma ilusão lhe apetecia,
Mais nenhum coração era seu dono.

Cada fruto maduro apodrecia;
Cada ninho morria de abandono;
Nada lutava e nada resistia,
Porque na cor de tudo havia outono.

Só a razão da vida via mais:
Terra, sementes, caules, animais,
Descansavam apenas um momento.

E o vencido poeta despertou
Vivo como a certeza dum rebento
Na seiva do poema que sonhou.


(do livro “Cinco séculos de sonetos portugueses de Camões a Fernando Pessoa”, organização: Cleonice Berardinelli, Casa da Palavra)



sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Sonetos luxuriosos - Pietro Aretino



7


Tens-me o pau na boceta, o cu me vês;
Vejo-te o cu tal como ele foi feito.
Dirás que do juízo sou suspeito
Porque nos pés eu tenho as mãos, em vez.

Mas se em tal modo de foder tu crês,
Confia em mim, assim não será feito,
Porque eu na foda bem melhor me ajeito
Se meu peito do teu sente a nudez.

Ao pé da letra quero-vos foder
O cu, comadre, em fúria tão daninha,
Com dedo, com caralho e com mexer,

Que vosso gozo nunca se definha.
Pois não sei que é dulcíssimo prazer
Provar deusas, princesas ou rainhas?

                               Mas direis, escarninha,
Que embora eu seja em tal mister sublime
O ter pouco caralho me deprime.

7


   Tu m'hai il cazzo in potta, in cul mi vedi,
Ed io vedo il tuo cul com'egli è fatto,
Ma tu potresti dir ch'io sono un matto
Perchè tengo le man dove sta i piedi.

   Ma s'a cotesto modo fotter credi,
Credilo a me, che non ti verrà fatto,
Perchè assai meglio al fottere io m'adatto
Quando col petto sul mio petto siedi.

   Vi vuo'fotter per lettera, comare,
E vuo'farvi nel cul tante ruine
Colle dita, col cazzo e col menare,

   Che sentirete un piacer senza fine.
Io non so che più dolce, che gustare
Da Dee, da Principesse e da Regine,

                                   E mi direte alfine
Ch'io son un valent'uomo in tal mestiero,
Ma d'aver poco cazzo mi dispero.


(do livro “Sonetos luxuriosos”, Tradução: João Paulo Paes, Má Companhia)



quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O poeta andarilho e seu cajado alado - Luis Turiba



Passagem


quanto mais leve o fardo
mais farta é a levitação

e cada passo
um descongelamento
de um futuro avivamento

o bom da morte
é a inacessível condição
de cerimônia de passagem
deixa tudo em suspensão
no mergulho fascinante
compromissos amores certezas
e as contas a pagar
tal qual porto
ou parto


(do livro "Qtais", Editora 7Letras)



quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Na clepsidras - Henrique Rodrigues



Tempo


O tempo voa e morre a cada instante.
De tudo o que aparenta eternidade
Nem o passado fica, na verdade,
E o agora é só um segundo mais distante.

Futuro nada é mais do que o presente
Que aguarda numa fila, e se suicida.
A vida que virá já é coisa ida
Enquanto aqui se foi faz a nascente.

O instante, que se mata e vai embora,
Em noite se transforma como o dia.
Momentos se sepultam a toda hora

Mostrando uma verdade que dizia
Que a morte não existe - existe o medo
De a noite revelar-se ainda mais cedo.


(do livro "A musa diluída", Editora Record)