segunda-feira, 5 de maio de 2014

Adonais: uma elegia sobre a morte de John Keats, autor de Endymion, Hyperion etc. - Percy Bysshe Shelley



XV


Eco perdido paira entre as montanhas silentes,
Alimenta a dor com seu lar relembrado,
E jamais responderá aos ventos e fontes,
Aos ternos pássaros pousados no ramo esverdeado,
Ao berrante do pastor ou ao sino do dia findo;
Pois não pode imitar seus lábios com mais ardores
Que aqueles cujo desdém houvera-lhe definhado
Tornando-se sombra de todos os sons: – lúgubres rumores
Entre suas canções, é tudo que escutam os lenhadores.


XV


Lost Echo sits amid the voiceless mountains,
And feeds her grief with his remembered lay,
And will no more reply to winds or fountains,
Or amorous birds perched on the young green spray,
Or herdsman’s horn, or bell at closing day;
Since she can mimic not his lips, more dear
Than those for whose disdain she pined away
Into a shadow of all sounds: – a drear
Murmur, between their songs, is all the woodmen hear.


(do livro "Sementes aladas", Tradução: Alberto Marsicano, Ateliê Editorial)



domingo, 4 de maio de 2014

Cláudio Manuel da Costa



XXXII


Se os poucos dias, que vivi contente,
Foram bastantes para o meu cuidado,
Que pode vir a um pobre desgraçado,
Que a ideia de seu mal não acrescente!

Aquele mesmo bem, que me consente,
Talvez propício, meu tirano fado,
Esse mesmo me diz, que o meu estado
Se há de mudar em outro diferente.

Leve pois a fortuna os seus favores;
Eu os desprezo já: porque é loucura
Comprar a tanto preço as minhas dores:

Se quer, que me não queixe, a sorte escura,
Ou saiba ser mais firme nos rigores,
Ou saiba ser constante na brandura.


(do livro “Cláudio Manuel da Costa”, seleção: Francisco Iglésias, Global Editora)



sábado, 3 de maio de 2014

Poesia palestina de combate - Hayi L'Assaqilah



O estrangeiro


Não se apoderem de meus olhos
Sou o estrangeiro
em busca de uma pátria
meu coração se esmigalhou
sobre as montanhas da neve, do sangue e da geada
caminhei com as crianças
me abandonaram
na noite da fome, do sangue e da geada
levantaram sobre minhas costas
as tábuas do meu atúde

Não me exterminem
sou o estrangeiro
em busca de uma pátria...
que erro cometeu meu povo
para que viva hoje
numa terra em ruínas
que erro cometeu o pássaro
para que o joguem de um bosque a outro
que erro cometeu meu coração
para que derramem sobre ele
a catástrofe e tanta dor.


(do livro “Poesia palestina de combate”, Achiamé)



sexta-feira, 2 de maio de 2014

Cortejo - Pedro Lago

Canção dos lençóis


Eram os desenhos espalhados
em tua pele e o gosto de
cachaça em nossas línguas.

Era teu corpo despido
virando,
e tua mão no meu rosto
estalando.

Eram teus olhos negros fechados
gostando,
era teu ventre salgado
indo e voltando.

Era a suíte para cello de Bach
tocando,
era teu sono resistindo,
eu, implorando.

Era teu corpo quente
escrito esculpido,
era a noite que tudo assistia
sorrindo e sugando.



(do livro “Cortejo”, selo LábiaGentil)



quinta-feira, 1 de maio de 2014

Dobraduras - Alice Sant'Anna



Maio


Para Armando Freitas Filho

essa voz que escapa como fiapo
estria na pele imperceptível
pinga no vidro e derrama, maio
chega na ponta dos pés
com dias curtos e correntes
de ar. por pouco não despenca
(outono é ponte) e desafina,
mas maio se mantém meio
bambo na corda, se espirra
cambaleia, em maio dá vontade
de dormir até mais tarde


(do livro “Dobraduras”, Editora 7Letras)