segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Canto Oitavo - Luís de Camões



66


Mas, porque nenhum grande bem se alcança
Sem grandes opressões, e em todo o feito
Segue o temor os passos da esperanças,
Que em suor vive sempre seu peito,
Me mostras tu tão pouca confiança
Desta minha verdade, sem respeito
Das razões em contrário que acharias
Se não cresses a quem não crer devias.


(do livro "Os lusíadas", Klick Editora - coleção vestibular Estadão)


 

domingo, 24 de novembro de 2013

A pétala trincada - Lélia Coelho Frota



Dial

 
Diante
como dois olhos.

Diante
como as portas do sim
e do não.

Diante
como a lua
e o sol
no céu estendido.

Diante
como o último instante.

Difícil
(é preciso)

olhar
o diamante
diante.


(do livro “Poesia reunida 1956 – 2006”, Bem-Te-Vi)



sábado, 23 de novembro de 2013

Miguel Figueiredo de Souza



Ad Litteris et Verbis


Vivo mergulhado num caos de letras,
Que me vêm à mente, juntas, soltas,
Se embaralham, se misturam, se vão
E falam solitárias, belas ou rotas.

Fluem livres pelo papel
Rabiscadas, desenhadas, pintadas
Em forma, de forma, disformes
Com rima, buscando ritmo, estanques.

Desse caos saem palavras e versos,
Que em elo formam algumas estrofes
Onde retrato meu particular universo.

Nesse firmamento as leis são contrárias
A qualquer lógica contra seu caos,
Que impeça sua poesia – bela, torta, falha.


(do livro “Segunda coletânea de contos e poemas usina das letras”, Usina das letras)



sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Glauco Mattoso



Soneto 287 utópico


No fundo, o grande sonho masculino
é conseguir chupar a própria tora,
coisa que o chimpazé faz toda hora,
e o homem tenta, em vão, desde menino.

Seja porque seu membro é pequenino,
ou porque o corpanzil não colabora,
o fato é que o machão lamenta e chora
o irônico, anatômico destino.

Parece que a utopia nua e crua
resume-se numa autofelação,
quem sabe a autofagia, que jejua...

O jeito ver a ser a masturbação,
e o sonho sensual se perpetua,
enquanto a mulher crê que dá tesão...


(do livro "Poesias Pornográficas", organização: William Galdino e Barateza Duran, Editora Cozinha Experimental)



quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Via férrea - Mário Alex Rosa



O lugar que se habita


Na falta de mim
invento outro, muito mais violento,
como aquele no espelho partido
de mim enquanto pensava na primeira pessoa.

Na falta da palavra sim,
o que dizer do não,
do lugar que se habita?
Penso na primeira pessoa.
Aqui no branco
ou numa avenida estreita,
a margem é a mesma.
A sombra também.


(do livro “Via férrea”, Cosac Naify)