quarta-feira, 23 de julho de 2014

Emaranhado - Marcio Rufino



O rei do nada


Perdestes todos os teus guardas fortemente armados
Agora tens em tua cabeça, encravada, uma coroa de arame farpado
Ris do sangue que rola na tua face
Mas não notas a pedra que em teu peito nasce

Ris também de artistas do dia e da noite
Mas não percebes que és tu o bobo da própria corte
Sentes a lágrima que corre em tua veia
E vês sendo derrubado o seu castelo de areia

Lê toda tua história num mísero alfarrábio
Ciceroneando com teus falsos súditos os escombros de teu palácio
Muito mais do que imaginas, teus inimigos já estão bem perto
Enfeitando com a tua dignidade a ponta de teu próprio cetro

Aos poucos se esmigalha o pão duro do teu poder
E escoa no ralo de tua ignorância o vinho do teu desejo de vencer
As incessantes guerras escondidas no porvir
Pois conflito mais intenso e invencível é o que há dentro de ti

Com o olhar perdido esperas um momento novo
Sem ver teu manto pegando fogo
Em tuas terras não brota nem cresce vida
Nem feijão, nem arroz, nem trigo, nem centeio
Tu que não és nada e moras no outro lado deste espelho


(do livro “Emaranhados”, Maple)



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