sábado, 22 de março de 2014

Gonçalves de Magalhães


Noite tempestuosa

Que tempo horrível;
Que noite escura;
Nem uma estrela
No céu fulgura!
Negros vapores
Vão se estendendo
E o espaço enchendo;
Na serra ao longe
Ronca o trovão.

Fuzis cintilam;
E o vento irado
Nas trevas zune
Desenfreado.
Espessas nuvens,
Que no ar negrejam,
Rotas gotejam
Pertinaz chuva,
Que alaga o chão.

Noite mais negra
Minha alma enluta;
Maior tormenta
Cá dentro luta.
O quadro horrendo
Da natureza
Mal a fereza
Exprimir pode
Do meu sofrer.

Eu neste leito,
À dor exposto,
Somente choro
Por ver teu rosto.
Tudo mereces,
Oh minha bela;
Tu és a estrela
Que só procuro
Constante ver.

Chovesse embora,
Não me importara;
A chuva, o vento,
Tudo afrontara.
Nem fora muito,
Se a dor cruenta,
Que me atormenta,
Não fosse assídua
Em seu rigor.

Mas ah! não posso,
Não posso erguer-me!
Manda suspiro
Que venha ver-me.
Por ti mandado
Esse suspiro
Ao meu retiro
Daria alívio
À minha dor.

Aqui sozinho
Para animar-me
Contigo todo
Quero ocupar-me.
A tua imagem
Ante mim vaga
Ela me afaga
E co’um sorriso
Me faz sorrir.

Teu doce nome
Pronunciando,
Meu sofrimento
Vou acalmando.
O que mais sinto
É a inclemência
Da dura ausência
Que sem remédio
Devo sentir.


(do livro "Poesia brasileira - Romantismo", organizadores: Valentim Facioli & Antonio Carlos Olivieiri, Editora Ática)


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